sexta-feira, 19 de abril de 2013

Para ti, sabes bem


Um comentário:

  1. Ó minha musa, então! que tens tu, meu amor?
    Que descorada estás! No teu olhar sombrio
    Passam fulgurações de loucura e terror;
    Percorre-te a epiderme em fogo um suor frio.

    Esverdeado gnomo ou duende tentador,
    Em teu corpo infiltrou, acaso, um amavio?
    Foi algum sonho mau, visão cheia de terror,
    Que assim te magoou o teu olhar macio?

    Eu quisera que tu, saudável e contente.
    Só nobres idéias abrigasses na mente,
    E que o sangue cristão, ritmado, te pulsara

    Como do silabálirio antigo os sons variados,
    Onde reinam, o par, os deuses decantados;
    Febo — pai das canções, e Pã — senhor da seara!

    Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

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